Outro dia estava conversando com a Mariana Bertolucci, uma querida amiga dos tempos da redação da Zero Hora. Mari agora é dona de uma editora de livros, e como eu já estava coletando material para um texto sobre gestão financeira me ocorreu de lhe perguntar como ela cuidava do dinheiro da sua empresa. O assunto não prosperou muito. “Não sei nada disso, deixo tudo com o contador”, ela respondeu. Pelo menos isso, eu suspirei.
Num país onde a educação financeira passa longe dos currículos escolares e a população em geral sofre para equilibrar o orçamento doméstico é de se esperar que também os pequenos e médios empresários encontrem dificuldades para controlar o dinheiro que entra e sai do caixa. Embora gigantes também não estejam imunes a esse mal, vide o caso Lojas Americanas.
As consequências do descontrole financeiro são terríveis. Dados recentes do IBGE (2024) mostram que 60% das empresas brasileiras fecham as portas depois de cinco anos. Sendo que 20% se vão já no primeiro ano de atividade. E apenas quatro de cada 100 sobrevivem por mais de 10 anos. Nada menos que metade desses encerramentos são atribuídos à má gestão financeira. Sem falar que boa parte das que resistem vive eternamente mal das pernas.
Em 2024, mais de 6,9 milhões de empresas brasileiras fecharam o ano endividadas.
Por definição, “gestão financeira é o conjunto das ações e procedimentos administrativos relacionados com planejamento, execução, análise e controle das atividades financeiras de um negócio”. Em português mais claro: some quanto você ganha (e saiba de onde vem esse dinheiro), some quando você gasta (e para onde vai esse dinheiro), subtraia o que você ganha do quanto gasta. E reze para que o número seja positivo.
Mas não é tão simples como parece, vou contar a história de nosso amigo padeiro da esquina, que começou o seu pequeno negócio, o mesmo cresceu, porque ele faz o melhor pão da cidade e as pessoas fazem fila para comprar na sua padaria. Mas, infelizmente, nosso padeiro não entende nada de planejamento, execução, análise e controle das atividades financeiras de um negócio. Seu negócio é pão, não fluxo de caixa ou margem de lucro.
Nessa confusão, ele já não sabe mais direito quantos pães vende por dia, quanto dinheiro entra no caixa, quanto sai, se o preço que está cobrando está dando lucro ou ele está pagando para trabalhar, que dia precisa pagar o fornecedor de farinha. E lá pelas tantas chega uma conta de R$ 5 mil que vence hoje. E não há um mísero centavo no caixa porque o nosso padeiro pegou um dinheiro para pagar a escola das crianças e gastou o resto para quitar a conta da luz, que já estava atrasada. E ainda vendeu um monte de pão fiado e só vai ver a cor do dinheiro no fim do mês que vem.
Tarde demais.
Fim da linha para mais um bravo empreendedor brasileiro que termina na Vara de Falências.
Contabilidade consultiva
Mas a história do nosso padeiro poderia ter um final diferente se ele tivesse feito uma boa gestão financeira do seu negócio.
Um caminho para isso teria sido estudar finanças e aprender o suficiente para fazer a contabilidade por conta própria. Mas nem sempre é viável e possível para o dono de uma pequena empresa, em meio a tantas outras tarefas, gastar tempo e esforço para entender os números, identificar custos, conhecer suas despesas fixas e todos os outros procedimentos que fazem parte da gestão financeira. E sem falar que ainda conhecer, às vezes com detalhes, a complexa legislação tributária brasileira, um catatau de leis, normas, portarias e resoluções que tiram do sério até os mais experientes contadores e tributaristas.
Em muitos casos, a melhor opção para o pequeno empresário pode ser a contratação de um BPO financeiro, um serviço de terceirização do setor financeiro da empresa que se encarregará da gestão de contas, da emissão de notas, do controle do fluxo de caixa e das demais obrigações contábeis e fiscais, além de entregar relatórios que mantêm o empresário informado da situação do negócio.
Gestão financeira é, na prática, saber exatamente para onde o dinheiro vai, de onde ele vem e se é suficiente para sustentar o negócio. Mas também é cuidar das decisões que mantêm a empresa viva.
– afirma diz Gustavo Souza da Silva, gestor financeiro do escritório de contabilidade Contex Digital e sócio da Mil Estratégias.
A contabilidade, diz Gustavo, é necessária e obrigatória para todas as empresas. Mas o diferencial do mercado, hoje, principalmente tendo em vista todas as mudanças introduzidas pela reforma tributária, está na contabilidade consultiva.
Trata-se de um modelo que vai além de calcular impostos e realizar as operações contábeis necessárias. É quando o contador analisa os números da empresa, traduz os dados em relatórios como DRE (demonstração de resultado do exercício) e balanço, e os transforma em informações claras para o empreendedor. Isso gera melhores decisões, pois são baseadas em dados.
A diferença que um contador pode fazer?
Um contador pode fazer uma diferença enorme na gestão de um negócio, mas isso depende diretamente de como ele atua e de como o empresário se relaciona com os números da empresa, explica Gustavo:
Quando visto apenas como alguém que calcula impostos e entrega obrigações, o impacto do contador é limitado. Ele cumpre um papel importante, mas restrito. Mas quando atua de forma estratégica, sua presença muda a forma como o negócio é conduzido. Um bom contador ajuda o empresário a enxergar além do faturamento e contribui para decisões mais seguras e conscientes. Ao interpretar demonstrativos, ele identifica se o crescimento da empresa está, de fato, gerando lucro ou apenas aumentando custos e impostos. Muitas vezes, é ele quem aponta que o problema não está nas vendas, mas na margem, na estrutura de custos ou no regime tributário adotado.
O contador também pode ajudar a empresa a rentabilizar melhor, realizando análises de planejamento tributário, enquadramento correto e prevenção de multas, evitando saídas de dinheiro que pode ser usado para investir, crescer ou fortalecer o negócio.
Apesar de silenciosa, é uma das maiores contribuições para a sustentabilidade da empresa no longo prazo – explica Gustavo.
O comprometimento do empresário
Então basta o empresário entregar a gestão da empresa para o contador e pronto, tudo está resolvido? Não é bem assim.
O empresário não precisa virar contador, mas precisa entender algumas informações básicas, como saber quanto ganha, quanto gasta, onde perde dinheiro, e também entender o básico de uma DRE e do fluxo de caixa – explica Gustavo.
O contador, o gestor financeiro e os consultores orientam, analisam e recomendam caminhos, mas quem decide é o empresário. Quanto mais comprometido ele estiver com a gestão, melhores serão essas decisões, porque serão tomadas com clareza e consciência dos riscos. Ou seja, sem o empresário nada é possível, visto que somente ele tem o poder de tomar as decisões pela empresa.
Quando o empresário se afasta da gestão, principalmente da financeira, ele passa a administrar no escuro – diz Gustavo.
E acrescenta:
Importante dizer que os negócios bem-sucedidos não são os que os donos fazem tudo, mas aqueles em que o empresário identifica os problemas, seja alertado por funcionários ou por conta própria, e age com velocidade e direção para resolvê-los de forma ágil, reduzindo os impactos negativos.
No fim, é o nível de comprometimento do empresário que define o destino da empresa. Como diz o ditado, é o olho do dono que engorda o boi.
A história do nosso padeiro não precisa ser a sua. O fechamento de portas de tantas empresas brasileiras não é um destino inevitável, mas um sintoma de que fazer o que se ama não é suficiente se você não cuida do que sustenta esse amor: o dinheiro.
Como vimos, a gestão financeira não é um “extra”; é o coração do negócio. Se você não tem tempo ou afinidade com planilhas e tributos, a contabilidade consultiva e o BPO financeiro surgem como os melhores aliados para tirar a sua empresa do escuro. Ter um especialista interpretando os dados permite que você pare de apenas “apagar incêndios” e comece, finalmente, a planejar o crescimento.
No fim das contas, o contador entrega o mapa, mas é o empresário quem segura o volante. O segredo da longevidade está em equilibrar a paixão pelo produto com o rigor nos números. Afinal, para o boi engordar, não basta o olho do dono; é preciso que o dono saiba exatamente o que o boi está comendo.


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